Saavedra Valentim

Manifestações da alma

Textos


EFEMÉRIDES

Te escuto, chore mulher, chore!

Não estou mais disponível, não pra ti.
Mas como me faz bem te ouvir: implore!
Aquele cara sensível, afável, sua morte assisti.
 
Não há mais, tu o matastes, era um refém!
Portanto, seca os teus olhos, te resigna!
Não me comoves, te perdoar não me convém.
Fique longe com o teu ódio, não me impregna!
 
Pisei no teu orgulho, rasguei tua vaidade!
Senti-me poderoso, era o dono do mundo!
Segui meu rumo, fantasiei-me de felicidade.
Livrei-me para sempre desse passado infecundo.
 
Vi-me rodopiando, belas valsas, ricos salões,
Linda companhia, vida impecável, champanhes!
Ainda ouvia o eco de teus apelos, como bordões,
Tocou meu coração, senti pena, mas não te assanhes!
 
Vivia como um rei, te ignorei, nem tive saudade!
Sem passado, nem futuro, vivia do presente,
Desliguei-me até do tempo. Nova era de liberdade!
Sem lágrimas, sem amarras, vivia contente.
 
Gritou-me! A realidade me chamava, me desentorpeceu!
 Não passou de um lindo sonho, era o meu regresso
À mesma vida de sempre. Ver-te não me enterneceu.
Senti-me novamente cativo, um tremendo retrocesso!
 
Perambulava pelas ruas dos meus sonhos, saudoso,
Cada casa, praça, árvore resgatava lembranças mil.
Rodei, rodei e terminei ali, sozinho, insistia de teimoso,
Tudo só existiu em sonho, encontrá-la era inverossímil! 
 
  Fui mais um fantasma nas sombras da noite,
Sem rumo, como um vagabundo sem destino.  
Perseguia-me o eco de teu lamento, agora um açoite,
Não era mais um prazer, mas um verdadeiro desatino!
 
Um copo com um líquido dourado, minha companhia!
Admirava-o como a uma bola de cristal, cria vê-la nela,
Mas tu, mesmo por pura maldade, o meu amor renhia. 
Que fizemos de nossas vidas, senão tormento, só querela!
 
Busquei sossego, uma tentativa de afastar-me de ti,
Encontrei o lugar certo, onde posso refletir e até chorar!
À noitinha estou sempre lá, a presença dela consenti,
Seu nome, não sei, chamá-la-ei "meu amor", se precisar!   
 
Meu lar hoje é um bar de esquina, em uma rua vazia.
Vivo numa mesa no canto, com muita bebida.
 Ao fundo, ouço Dolores, profunda melancolia!
De rasgar o coração! Letra triste, na dor concebida!
 
A melodia afeta os meus sentidos,
Até te introduz em meus sonhos,
Aflora em mim amores vividos,
E desperta medos medonhos.

Imagem: Can Stock Foto
Música de fundo: Fim de caso - Dolores Duran
Saavedra Valentim
Enviado por Saavedra Valentim em 01/04/2015
Alterado em 28/11/2016

Música: Dolores Duran - Fim de Caso (1958) - Dolores Duran

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