Saavedra Valentim

Manifestações da alma

Textos


RETIRANTES

A RENDIÇÃO
 
 
O dia amanheceu! Novo desafio, nova esperança! Desesperança!

Noite difícil, coração aflito, estômago atrofiado, alma dilacerada.

Crianças famintas, olhares interrogativos, resposta silenciosa, lacrimosa.

Mãe grandiosa, a mesma batata cozida por semanas,

Propriedades já sugadas, exauridas. Tubérculo a ser comido.

A fonte secara, selou seus destinos, tiro de misericórdia nas suas agonias.

Da terra seca, por entre rugas arenosas, brota desespero.

Zé Ferreira, trinta anos mal vividos, decrépto, ressequido,

Rosto sulcado, sanfonado, pele ressecada, mão calejada

A revolver a terra, trabalho infrutífero, intenso, clima impiedoso.

Colheita de lágrimas, enchendo panelas vazias, lacunas na alma.

- Calma meu véio, tudo se ajeita, só pra morte num tem remédio.

 - Ajeita como muié? Sê num tá veno? Só disolação! Morte!

- Deus vai dá solução pra isso tudo, meu véio, num se aperreie não. 

- Descurpa, mas cê vê Deus ai fora? Isso parece o inferno!

- Vira essa boca pra lá, home. Oh Jesus cristinho não escuita esse home não!

Num fala cum o coração não. Tá raivoso. Alma bondosa tem!

- Bestera muié. Deus quis me castigá. Pensei que fazia tudo dereitinho.

- Dizia minha finada mainha que Ele escreve certo pur linhas torta.

- Oxente, inda tenho que ficar escuitando seu sermão. Inté agora só linhas torta!

Maria Quitéria, pele e osso, não alcançou um metro e cinqüenta,

Mas sua valentia, sua fé, vai para mais de dez, cem, mil  metros.

Sua reza alcança o céu, mas sem eco, sem retorno,

Parece que Deus não ouve seus apelos, suas súplicas, sua rogação.

Destinos traçados? Coisas de Deus ou do demo, do maligno?

 - Num tem jeito muié, temo de retirá, vamo s’ imbora.

Nada mais dá aqui, nem fé, nem esperança.

- Vamo largá nossas coisa, nosso chão? Num posso não.

Sempre vivemo aqui. Meus painho que Deus tenha,

Fez essa rocinha molde nóis vivê. Criô dezessete fios aqui.

- Suas lágrima num vão regá nem irrigá o chão não, muié.

- Num temo mais nada no mundo, Zé. Que vai sê de nois, nossos fios?

- E eu sei? Pudesse lê o futuro, mas num posso.

Amanhã é outro dia! O sol vai continuá castigano, secano.

Um dia se Ele permiti nóis vorta, se não, vamo em frente.

- Mais até donde home? Esse mundo é grande dimais,

Num temo perna pra caminhá nele... prá que lado nóis vai?

- De onde vié o vento, dizem que “bons vento traiz”.

- Traiz o que, home de Deus? Nem tustão num temo.

- Sei lá, nunca entendi mermo esse dizê, mas vamo sabê.

Viviam num mundo cinza, até a luz era sem brilho,

Suas cabras, onde as crianças “mamavam” murcharam,

Agora só couro e ossada, nada se aproveita! Mais nada!

Pouca coisa para levar, só o peso dos cinco filhos,

Para alimentar, vestir e consolar. Como consolar a fome?

Ah! Me esqueci do manduca, cãozinho esquelético, fiel,

Mesmo na desgraça, não reclama, ainda piedade demonstra.

- Meu Deus guia nosso caminho, pra que a gente vai dereitinho,

Pra donde a fartura impera, donde tem água sobrano,

Donde né preciso di reclamá, di chorá. Oh! Virge santinha,

Vortai seus oinhos pra nóis que clama, que nem lágrima temo mais

Pra amortecê a queimação que arde aqui no peito!

- Sabe Maria? Sê tá clamano pro santo errado. Deus, nem a Virge, tá aqui não.

Tamo no inferno, tarvez o Demo escuita nóis e dá um alento!

- Só fartava essa Zé, sê perdê a fé! Ele pode castigá ocê e nóis tamém.

- Tamos ardeno no fogo dele. Sente, acha isso parecido co céu?

As labareda arde, só farta senti a fisgada do galfo dele.

- Num fala assim não, Zé. Tá assustano os mininos. Pai ingrato!

- Vamo ficá de conversa dia intero? Pega as coisa e se vamo.

- Né mior caminhá de noite? O chão quema do pé até a alma.

- Não, vamo logo, sinão nóis não consegue.

Vamo deixá aqui nosso sonho e nossa disgraça.

Adeus minha terra, até um dia se esse miserento dexá.

Pé no caminho, calor imenso, chão causticante.

As ossadas na caatinga atestam a desgraça anunciada,

Os urubus e carcarás disputam as poucas carniças que restam.

- Saimo na hora certa muié. Veja os bicho isfomiado,

podia sê nóis, os minino, cruiz credo!

- Nem fala Zé, nem fala ... Deus guia nóis!

Só resta chorar, sem olhar para trás.

Assim foi, assim é, assim sempre será ...
 


Obs.: A  imagem é o quadro de Portinari ; Retirantes
A música de fundo é Carmina Burana - Ópera de Mozarthttp://www.saavedravalentim.com/visualizar.php?idt=3594408
Saavedra Valentim
Enviado por Saavedra Valentim em 04/04/2012
Alterado em 15/09/2013

Música: Carmina Burana - Mozart

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